O fim.


A ambivalência causou um curto circuito no seu corpo jovem, e as cicatrizes de duas décadas intensas trituraram os frágeis ossos que viviam por trás da pele pálida e seca. Ao tentar esconder o que sentia, Alice acabou criando um labirinto na sua mente, invendável até para ela própria. Unhas roídas, cabelos emaranhados e olheiras destacando-se na base de olhos azuis exaustos. O retrato de uma vida terminada antes mesmo de começar. Uma faca pendia das mãos trêmulas da mulher, e na medida em que as vozes na sua cabeça aumentavam, mais a lâmina se aproximava do seu coração. Um sorriso estampou-se na face cansada de Alice, e num último suspiro, sentiu seu peito sendo perfurado. E então, ela caiu. Como vilã e mocinha, assassina e vítima.
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Preciso de você.
Quero deitar ao seu lado no jardim e contemplar as nuvens. Acordar com o cheiro do seu perfume incrustado na minha pele depois de uma noite de juras de amor ofegantes. Usar sua pele pálida como pijama, e usá-la de novo como agasalho no inverno. Sentir o gosto de café no seu beijo e inspirar seu hálito. Celebrar os mínimos detalhes com um pote de sorvete e uma maratona de filmes românticos. Nossos sorrisos particulares, recheados de segredos. O toque da sua mão segurando a minha tão gentilmente. 
Quero sentir seu peito apertado contra o meu, sua respiração no meu ombro e a mão na minha cintura. A vontade de acordar ao seu lado é mais forte que eu. Suas costas iluminadas pela luz do sol, seu cabelo cor de avelã bagunçado. Te acordar com beijos e queimar as torradas do café da manhã. Passar o dia inteiro contemplando cada pedacinho do seu corpo e amar cada minúsculo defeito. Ouvir poemas na sua voz suave, que desliza da sua boca até meus ouvidos, derretendo-se no caminho. 
Curar suas feridas com carinho e ter as lágrimas secadas pela manga do seu casaco. Dividir cigarros carregados com tristeza. O resto da cocaína espalhado na pia do banheiro. As agulhas, ainda com heroína, jogadas no chão da sala. Nossas roupas, tiradas com pressa, caídas no quarto. O último encontro de nossas pupilas dilatadas. Eu e você, você e eu. Muito mais do que dois seres humanos. Não sei onde eu termino e você começa, nos completamos com tamanha perfeição que me assusta constantemente. Tenho medo da intensidade das nossas memórias, tão cheias de paixão e ódio. 

Maria Clara

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